JOÃO CELSO SANTOS

Palestrante, escritor, jornalista, atuou por mais de 14 anos como professor universitário na área de marketing internacional. Atua no mercado como corretor de algodão. Ministra treinamentos na área comercial de algodão.

Onde está o Sr. Odilon?

Viajar de avião é, com certeza, uma das mais emocionantes e empolgantes experiências que se pode ter ao longo da vida. Cruzar os céus, conhecer novos lugares antes inatingíveis, encurtar distâncias, trazer de volta à convivência os parentes distantes (este último benefício pode ser um pouco questionável!). No Brasil, viajar de avião já foi sinônimo de algo sofisticado e até com certa áurea de romantismo. O compositor do Samba do avião descreve a emoção de voltar ao seu Rio de Janeiro: “aperte o cinto, vamos chegar”.

Felizmente esse prazer, que há alguns anos estava bem longe dos mais pobres e dos assalariados mortais, vai, aos poucos, se popularizando no Brasil. Muitos brasileiros têm, nos últimos anos, trocado as cansativas e quase transcontinentais viagens de ônibus pelas de avião. O percurso, por exemplo, de São Paulo para as principais capitais do Nordeste – Salvador, Recife e Fortaleza, demora três dias, ou mais de 50 horas! Para quem nunca viajou de ônibus não é possível imaginar o que sejam essas distâncias estratosféricas! A classe médica relata “o caso de um paciente que apresentou embolia pulmonar após extensa viagem de ônibus (cerca de 3.000 km) do estado do Ceará, na região nordeste do país, para São Paulo” . É o que os cardiologistas chamam de Síndrome da Classe Econômica Após Longas Viagens de Ônibus. Ou seja, viajar de avião ao invés de ônibus é também um caso de saúde pública.

O crescimento econômico e as mudanças culturais felizmente proporcionaram que fosse oferecido às camadas mais pobres da população esse benefício antes quase inalcancável. Percebemos que para cruzar este país continental em tempo razoável são necessárias asas. Mesmo que seja à noite, nos românticos “corujões”.

Claro que esse começo de popularização das viagens aéreas (esperemos que se tornem ainda mais populares!) trouxe também consigo muita confusão e, por que não dizer..? muita diversão!

Conta-se pelos cantos dos aeroportos que no começo desse turbilhão aéreo, muitos passageiros simplesmente se recusavam a aceitar as bebidas ou as (parcas!) comidas oferecidas nos vôos – achavam que teriam que pagar por elas! Imagine. As comidas de avião são o paraíso das nutricionistas e dos cardiologistas: coma à vontade que você jamais irá engordar. Pode aceitar tudo o que oferecerem, sem peso de consciência: não vai engordar nunca!

Contam ainda sobre um passageiro que chegou ao balcão da Companhia aérea e pediu para falar com o Sr. Chiquinho…
– Perdão, cavalheiro. Mas não trabalha aqui nenhum Sr. Chiquinho, respondeu o gentil atendente. O cliente insistia: – Mas, como?! Preciso falar com o Sr. Chiquinho. Eu preciso ir para São Paulo! Resposta padrão do atendente: “Eu vou estar verificando….”. Depois de algum tempo, de fato verificaram que o freguês, que, aliás, tem sempre razão, estava simplesmente tentando fazer o check-in. Queria fazer o seu próprio despacho (aéreo, bem entendido) para São Paulo (além claro, de algumas malinhas básicas). Quando me contaram, ou quando eu li essa história, achei um pouquinho estapafúrdia. E resolvi experimentar, no aeroporto de Recife: – Quero falar com o Sr. Chiquinho… eu disse ao atendente. – Aqui não tem nenhum Sr. Chiquinho, não! – Mas eu quero ir pra São Paulo. Me deram este papel e mandaram falar com o Sr. Chiquinho…. – Ah!, intuiu o rapaz: o que o Sr. quer é fazer o chéééck-in!… Ouvindo aquele tão simpático e peculiar sotaque pernambucano do atendente o amigo que estava comigo não podia acreditar que eu tivesse feito aquilo. Foi empírico, como diriam os acadêmicos.
E lá fui eu, para São Paulo.

As viagens aéreas são prazerosas e democráticas. São como o energético Red Bull: “dá asas”. Justamente por isso, vai ser sempre um mistério para mim a pressa com que as pessoas querem sair de dentro do avião. Impressionante. Talvez o medo fique escondido durante toda a viagem e aflore no momento da aterrissagem. Não adianta a aeromoça pedir uma, duas, três vezes: “Por favor, permaneçam sentados até a parada total da aeronave”. Não, não adianta. Basta que o avião ameace parar no finger ou no pátio – que uma verdadeira multidão literalmente salta das poltronas. E querem sair. O resultado mínimo é uma quantidade enorme (um Boeing!) de gente esperando em pé por muitos minutos, até que alguém se digne a abrir a porta (será que demoram de propósito?). Numa das últimas viagens eu presenciei uma cena bastante interessante. Uma senhora, com duas crianças pequenas, estava particularmente aflita para sair logo daquele tubo de torturas, chamando avião. Usando a linguagem apropriada, os “sinais luminosos” ainda não tinham se apagado, a aeronave não tinha parado; ela agarrou os dois filhos pequenos pelos braços, juntando a meia dúzia de sacolas e lá se foi pelo corredor, atropelando quem estava pela frente. Coisa digna de futebol norte-americano. Fiquei impressionado quando, finalmente consegui sair e lá estava a senhora, na porta do avião, esperando por não sei quem… Ou seja, a pressa era apenas para sair do tubo.


Histórias decorrentes das viagens aéreas são, realmente, infindáveis. Para mim é sempre pura diversão. Sem contra indicativos.


Uma coisa impressionante – sobre a qual, de antemão, eu me declaro completamente incapaz de entender – é o fato de as pessoas não comparecerem para embarque depois de terem feito o despacho – ou, em palavras mais técnicas, depois de terem “falado com o Sr. Chiquinho”. A pessoa sai de casa, pega um táxi ou, pior ainda, pede ao cunhado para levá-lo ao aeroporto, atravessa o saguão carregando, no mínimo, uma mala, enfim, tem todos os incômodos inerentes a uma viagem e… inexplicavelmente perde o avião! Desiste de viajar! Não é possível! Quem está na sala de embarque fica escutando a cacofonia dos altos falantes: “Sr. Fulano de Tal: compareça para embarque”. “Sr. Fulano de Tal. Última chamada!”. “Ô Sr. Fulano de Tal! Não vai embarcar, não?”. “Sr. Fulano de Tal: as portas já vão se fechar. Corra”. “Sr. Fulano de Tal: última chamada”. Embarque encerrado!
Aliás, se tem um lugar em que a palavra “último” tem um sentido alienígena é nas salas de embarque dos aeroportos. Depois que ameaçam com o “último”, ainda ficam muitos minutos usando a mesma ameaça vã. Mas, as pessoas perdem o avião. Inexplicável.


Há alguns dias fui a Goiânia para ministrar um treinamento. Depois de várias escalas e algumas horas esperando em aeroportos, finalmente, embarquei para o último trecho, no supersimpático aeroporto de Guarulhos (aviso: tem a cerveja e o sanduíche mais caros do mundo). Ufa! Finalmente faria o último vôo do dia e em uma hora e meia estaria no Hotel. Esperança vã. Embarcamos. Depois de mais de 20 minutos esperando por “vôos de conexão”, as aeromoças começaram a procurar desesperadamente por uma Sra. Cláudia…. “- Atenção Sra. Cláudia: se estiver presente, acenda a luz de chamada”. “- D. Cláudia, a Sra. está?”. (….) Puxa vida. Perderam a Cláudia.
Vinte minutos depois perceberam que a D. Cláudia tinha encontrado um programa melhor e não iria viajar naquela noite. Pode ter encontrado o seu Príncipe Encantado, ou, não sejamos maldosos, pode ter tido qualquer problema que a impediu de seguir viagem. O mais sensacional foi o Comandante anunciar candidamente que teriam que procurar e retirar a bagagem da, nesta altura, já tão querida D. Cláudia, pois “de acordo com as Normas Internacionais de Aviação, nenhuma bagagem pode seguir desacompanhada”. Uau! Que emoção. Assim, lá se foram mais uns 30 minutos de espera. Imagine a missão de achar a bagagem de D. Cláudia dentro de um Boeing, à noite.
E assim, a última etapa do vôo, que deveria durar singelos 90 minutos, virou um tormento de quase três horas. Finalmente, chegamos em Goiânia a 1h30 da manhã.

Dois dias depois, já recuperado, lá vou eu de novo com destino a Cuiabá. Muito animado às 7 horas da manhã. Desta vez perderam o Sr. Odilon. Estamos nós já dentro do avião esperando pela partida, quando vem a angustiante pergunta:
“Sr. Odilon, se estiver a bordo, queira acionar a luz de chamada”.
Onde está o Sr. Odilon?
Lá vamos nós outra vez. Boa viagem!

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